Recebi um mail que dizia apenas "Sem rodeios", que mostrava uma imagem de um feto de 10 semanas. Sei que uma imagem vale por mil palavras, e esta valería se eu vivesse no mundo da utopia, mas infelizmente vivo no mundo real e é lá que esta questão pertence.
A vida não está na teoria, mas na prática. E este referendo trata uma questão muito prática. E a prática diz que as mulheres abortam, quer seja permitido ou não. A diferença aqui é que as mulheres mais abastadas fazem-no fora do país de forma segura sem correrem o risco de ir parar à prisão.
Facto-Criminalizar o aborto não reduz o número de abortos; apenas aumenta a mortalidade e o risco que advêm dos abortos clandestinos. A maioria dos abortos ilegais são realizados em condições que põe em risco a saúde da mulher. São sobretudo as mulheres sem recursos financeiros que recorrem a métodos abortivos de risco. Os abortos ilegais realizados em condições pouco seguras matam uma mulher de 6 em 6 minutos. Nos países onde o aborto foi legalizado diminuíram drasticamente as consequências graves causadas pela sua prática e a taxa de mortalidade de mulheres.
De qualquer forma, também não entendo onde está a dificuldade de compreensão das simples palavras "liberdade de escolha, livre arbítrio..." Se sofremos ou não com as consequências dos nossos actos é um problema nosso. Mas temos o direito de poder decidir.
É óbvio, mas talvez impossível para as pessoas que são contra a despenalização, entender, que aqui, ninguém que está pelo "sim", está contra a vida.
A questão é muito mais abrangente que isso, no entanto, teimam em ver apenas num só sentido.
Uma mãe que vai presa por ter abortado, sofre uma humilhação pública, tem filhos em casa que ficam sem ela e a observam ser enxovalhada na praça pública. É isto que os defensores do não defendem.
Também há quem pense que o número de abortos vai aumentar com a despenalização... Sim, podemos vislumbrar já, de antemão, os centros de saúde inundados por filas intermináveis de mulheres, esses seres inconscientes e irresponsáveis, que tiram senhas e aguardam vez.
A título de informação, a Organização Mundial de Saúde defende que: "Os governos têm de avaliar o impacto dos abortos inseguros, reduzir a necessidade de abortar e proporcionar serviços de planeamento familiar alargados e de qualidade, deverão enquadrar as leis e políticas sobre o aborto tendo por base um compromisso com a saúde das mulheres e com o seu bem-estar e não com base nos códigos criminais e em medidas punitivas.
A mulher não o faz de ânimo leve já que sabe o que pode advir da sua decisão. Se a toma é porque teve razões fortes para o fazer. Mas num país com as dificuldades económicas que sabemos que existem não é muito dificil de perceber o porquê.
Facto-Quanto mais pobres são as mulheres maior é a probabilidade de, ao encararem uma gravidez indesejada, provocarem o aborto a elas próprias ou fazerem-no com pessoas sem formação médica, aumentando os riscos de saúde e de hospitalizações devido a complicações. Tornar o aborto um procedimento médico legal seguro e acima de tudo economicamente acessível, irá melhorar a futura situação financeira dessas mulheres e/ou das suas famílias e pode, assim, ser considerado uma forma de luta contra a pobreza.
E depois existem também aqueles casos de pessoas que não querem nem deveríam tão pouco ter filhos, mas são obrigadas a tê-los. E depois ligamos a TV e observamos aqueles casos, já tão frequentes, de bebés encontrados no lixo. Talvez os do "não" prefiram mudar de canal.
Facto-As crianças negligenciadas em Portugal ultrapassarm as 4.000 em 2004. Em cada dois dias, uma criança portuguesa é vítima de maus-tratos, dos quais muitas vezes resulta a morte da mesma: maus-tratos físicos, psicológicos e abuso sexual.
A religião também é um factor que conta na decisão de muitos. Porque enfim está escrito. Para o cristianismo, o aborto é homicídio desde o instante da concepção. E porquê? Há decerto várias explicações plausíveis.
Facto-Em 1854, com a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, prevalece a teoria da animação (união entre a alma e o corpo) no momento da concepção, na medida em que se declarava que Maria estava preservada do pecado original desde o instante da sua concepção, por isso era evidente que a alma estava presente desde o início.
Baseiam-se na história da Carochinha, mas a verdade é, como todos bem sabemos, nós seres pensantes que não acreditam em fábulas de anjos que fecundam rapariguitas, que a Carochinha comeu o João Ratão e se calhar até gostou!
Invoquem os argumentos todos que quiserem e sejam felizes com a vossa consciência. No fim de contas, isso é que é importante.
6 comentários:
Brilhante artigo que, de facto, aborda as várias faces da questão muito claramente, deitando abaixo os argumentos dos defensores do não sem margem para "mas". Não deixa, no entanto, de ser um tema delicado, este do aborto. Mas se tivermos com rodeios de ilusões moralistas, nunca iremos assumir este problema como um país civilizado e realista.
Como eu sempre costumo dizer, se não podes evitar, ao menos tenta controlar.
Thumbs Up, Ana! :)
Mt bem escrito, sem margens para dúvidas ou questões, embora infelizmente ache k neste pequeno país de mentalidades tão retrgadas como é o nosso vá ganhar o "não" pois vejamos k esta lei foi feita e está a ser debatida por homens que não sabem nem sentem o k uma mulher sente aquando de uma gravidez, por sua vez estas estão a ser tidas como incapazes ou mentecaptas levianas k não têm poder de decisão sobre si. As pessoas do "não" certamente já abortaram, mas sentem-se indignadas com "tal acto bárbaro" pk felizmente não padeceram de complicações.
Lógicamente que se irá notar um "aumento" de abortos, isto pk tal deixará de se efectuar em situações precárias e de forma clandestina só isso. Deixemo-nos então de falsos moralismos pois todos nós somos a favor da vida, mas na minha opinião apenas quando esta pode ser vivida com alguma qualidade e dignidade, tanto para a mãe e o seu futuro rebento.
Todos nós sabemos o k acontece a uma gravidez não desejada e o que daí advém para a criança, vitima de maus tratos, internada em uma qualquer "casa pia" deste país...para quê???? para se tornar numa pessoa revoltada e ingressar numa vida de dor e por vezes de deliquência.
Deixemos então as principais interessadas deste referendo decidir o k kerem e como devem lidar com o seu corpo, pois homem algum neste mundo sabe o k é ter de decidir levar uma gravidez a cabo ou não. Por isso eu voto SIM, e por favor se realmente amam as vossas mulheres, namoradas, companheiras ou amigas então façam o mesmo, apenas elas sabem a dor de perder um filho e não sejamos egoistas ao ponto de pensar k podemos decidir por elas.
Ana quanto a ti, excelente texto e continua assim miuda.´
Beijão grande
Tiago
Também sou pelo sim pelos motivos que descreves tão bem com o teu texto.
Até compreendo algumas das ideias dos que são a favor do NÃO, e ninguém diz que o feto não é já um ser que luta pela vida, mas e as mulheres onde é que ficam no meio desta qestão?
Parecem-me os muitos "NÃOS", mais preocupados com o "ser" que as mulheres albergam na barriga do que com a própria mulher, a quem não se deve dar menos importância e que continuam por aí a morrer aos milhares por praticarem o aborto de forma ilegal, por não terem condições económicas que as permitam ir até Espanha ou outros locais; (como provavelmente muit"as" que agora andam por aí a gritar fervorosamente pelo NÃO já tiveram necessidade de o fazer) para irem ao encontro das condições necessárias que as possibilitem praticar o aborto de forma segura.
E duvido muito que todas as mulheres que já praticaram um ou várias abortos o tenham feito com um enorme sorriso nos lábios, como se se fossem livrar de um quisto nas costas, mas se o decidiram fazer, foi porque era a melhor opção.
Por isso, já que não podemos acabar com esta situação (isso seria o mesmo que conseguir acabar com o problema da fome...)ao menos tentemos de algum modo melhora-la, fazendo baixar o nr de mulheres que todos os dias são obrigadas a colocarem-se em situações de risco e a serem tratadas como "criminosas", como referes no teu post.
Eu sou pelo SIM e espero que o SIM ganhe, não por uma questão de "esquerda direita e ora vamos lá ver quem ganha desta vez", mas por uma questão de consciência.
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Gostei imenso da forma como abordaste a questão. Eu, por outro lado, vou seguir uma via algo mais simplista ( :P ) e dizer o seguinte: Um defensor do NÃO é um idiota do caralho! Por outras palavras, tem o intestino grosso ligado ao cérebro. Ou, de forma mais sucinta, caga pela boca. Espero que este meu comentario tenha sido claro e eloquente. Beijos Anovskaya Boazona.
LOL Anovskaya xP
Queremos mais posts! :p ;)
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